Manifesto as gerações do novo século

   De fato pensar doí e é por isso que não recomendo que você pense muito, ao menos, é claro, que seja um masoquista, mas não é algo que eu recomenda nem para estes. Pensar pra que? ♦
   Ler? Pff... Eu sugeriria você parar agora, neste momento. Nem mais um linha. Uma total perda de tempo. Você sabe que este não é o tipo de texto que se compartilha no facebook; ele não é moralista religioso nem engraçado e além disto é grande de mais.
   Livros? Já viu alguém comentar algum livro que não seja num rodinha de nerds(!?); e se viu, não foi sobre um livro que virou filme!? Então vá assistir o filme, oras. Tenho certeza que ele é igual ao livro sem as partes chatas!
   Teatro e Documentários... tão igualmente inúteis quanto os livros! Rodinhas de nerds e utilidade zero em sua vida.
   Televisão, Stand Up Comedy, Shows Sertanejos e Baladas Funk! É o que há! Não entendo como as antigas gerações conseguiram sobreviver sem isto. Deve ser por isto que se tem tantos livros no mundo, já que não tinham nada legal para fazer, pensavam em ciências, filosofia, sociologia, física, astronomia, química, anatomia... e olha no que deu. Um mundo em caos e miséria.
   Opinião crítica? Só gera debates e discórdia, deixe a televisão pensar pela gente, afinal ela nunca errou e sempre fez as coisas pensando no povo. Ela nem cobra pra gente assistí-la, ao contrário dos políticos eleitos que  nem sequer trabalham; e nossos "intelectuais" que vivem de greve... Temos que dar um basta nisto!
   Viva as novas gerações! Verdadeiros geradores de ações que estão construindo um mundo mais evoluído e divertido. "Melhor do que viver aflito em dúvidas e desperdiçando horas em estudos". YOLO. Parece até que nossos ancestrais não sabiam que só se vive uma vez para aproveitar as maravilhas do mundo.
   Mostraremos que somos mais espertos do que eles foram!
   Meus avós, por exemplo, me diziam que quando você começa a utilizar qualquer órgão que você pouco usava, no começo sempre gerará dor, mas depois que nos acostumamos, conseguiremos sempre ir muito mais além do que possamos imaginar desenvolvendo-o. ♦
   Os antigos sempre subestimaram nossa inteligência, até parece que a gente não saca isso quando vamos a academia e fazemos abdominais e levantamento de peso.
   Nossos velhos nos chamaram de revoltados sem causa, agora iremos fazer uma revolução da nossa causa! Para mostrar a todos quem nós somos: o futuro!

Moleque que xingou muito no twitter

Desafio "Narrativa Retalhada" - Parte 2/5

Esta é a segunda parte do desafio Narrativa Retalhada. Para ler como começaram as peripécias do colega Grégore, clique aqui. Domingo que vem, Alisson que está careca, pausa para risadinha, vai dar continuidade às minhas loucuras, que não foram poucas. Boa sorte aí, falou. 
Consegui me mover, para o mal dos pombos espantados, que fugiram numa frenética ventania de asas para cá, penas para lá e pipocas para toda a banda. Quis imitar a liberdade dos pombos, ser do tipo que enche o papo na terra e acha refúgio nos ares, mas meu tipo ainda vacilava entre o humano e o trem que o esquecimento privou-me de conhecer. Mas bastou olhar para trás, fazer jus do corpo que agora me deixaria andar entre a normalidade dos vivos, para ver que caído ao lado do banco estava um livro de capa grossa que era senão a casca do caracol em cujas dobras eu costumava morar.
Não que tenha me voltado a memória de uma hora para outra e de uma vez por todas, porque ainda me perguntava cadê meu deus para dizer memento homo. Acontece que do livro aberto na grama, páginas vacilando ao vento dos pombos, saía uma fita escamosa que terminava no meu umbigo e que um cordão umbilical sirva de argumento!
Voltei ao banco para recolher o susto de notar minha estranheza, também o susto dos que passavam indiferentes pela igreja todos os dias e hoje se depararam com a nudez de um homem híbrido, um tantinho livro. Tá, possíveis explicações para o porquê de eu querer mijar, comer, beber, comer de novo, por que diabos eu também via, sentia, cheirava e sobretudo pensava quando era mero objeto. Por a mais b: se fui homem por demais na época em que meu nome era grégore trevor visto que eu não era pessoa, era coisa, a explicação só pode ser a seguinte: quem me escreveu amava aquela figura de linguagem chamada prosopopeia.
De pensar nisto, como a dar um passo à frente, quem foi que me escreveu? E se este fui eu, se meus músculos de antes eram fibras vegetais de papel e ranhuras da tinta, então para recobrar a memória bastaria ler aquele volume de folhas? De pensar nisto, foi como dar um passo para trás, até porque o volume de folhas não me contaria a tradução da vida de alguém e sim uma história com rodeios e uns poucos personagens, uma problemática que começava na estante de um rei e, depois duma perseguição frenética, desembocava numa praça de igreja, seguida por uma queda, uns pombos, para enfim nascer o protagonista. E o protagonista, eu mesmo, já ia ler o que dizia seu passado inteiro quando surgiu na esquina, lá longe, uma correria que quase se confundia com um arrastão ou fuga em massa de uma cadeia.
Nem um, nem outro: vinham correndo um padre de batina preta, o Neymar ainda de uniforme verde e amarelo e moicano, grande parte da guarda real e até o rei em pessoa! Os olhos de todos estavam mirados em mim, corriam para mim e mim, índio ou não, correu mais que tudo para além da matriz, além da feira, com o livro em mãos, ó céus.
Parei para tomar fôlego, ao contrário da comitiva, que me perseguia sem paradinhas para ar, água ou dor de veado. De uma vez por todas, dei um passo à frente de novo, não na avenida e sim na lógica do conto: li o nome do autor do livro e reli para ver se não estava enganado. Porque embaixo do nome GRÉGORE TREVOR, que titulava a capa grossa, repousava o nome daquele que, como ditava algum capítulo dentro do outro lado do meu umbigo, era meu destino encontrar. Estava escrito:
Machado de as, ops, Machado de Eugênio.
          ...
Mr. K

Mundo em Binários


            Iniciando sistema...
                Então eu acordo, mais uma vez, com ele me encarando. Ele insere códigos e ordens em meu teclado, busque isso, execute tal programa, toque determinada música. E eu, com meu olho inexpressivo, encaro tudo inerte e indiferente.
                Trabalhos universitários, algo sobre estágios... Ele me utiliza enquanto come, suja meu mouse com seus dedos engordurados de pizza. Coloca uma música para tocar, não sinto nada ao ouvi-la, só sei que, pelos padrões exigidos na teoria musical, esta provavelmente não é uma musica que entreteria um maestro. Ele mais e mais me entulha com superfluidades abertas, preenche minhas abas com páginas de navegação, a maioria de redes sociais. O trabalho universitário é rapidamente cumprido, copia fragmentos daqui, outros dali, e o trabalho se mostra pronto e, sob um olhar apressado, que é o máximo que se espera de professores universitários, não por má vontade, mas por tédio e descrença mesmo, o trabalho parecerá condizente com o requisitado. Grande imbecil, como eu o odeio.
                Depois passamos por diversas notícias, clamo para que ele abra alguma interessante, sim, tenho interesse no mundo que me cerca, mas ele só acessa notícias irrelevantes e estúpidas; o ultimo tênis lançado pela marca que todos querem usar, a última música lançada pelo cantor que está tocando nos meus autofalantes, e um rápido tutorial de como esconder maconha dentro da sola do sapato, o tutorial afirma ser de serventia universal; dicas de como se vestir para ser um pegador; o sorteio de uma guimba de cigarro fumada por um artista que ele admira... Babaca filho da puta.
                Cansado de toda essa merda, e precisa ser muita mesmo para que eu me canse, resolvo travar propositalmente para ver se ele me demonstra uma tez menos idiota. Baseado no artigo que ele lia, que pelas tags sei ser assunto de grande interesse da parte dele; na expressão facial que tinha e no frenesi com que mexia a mão, calculei as chances d’ele se irritar, que era exatamente o que eu queria. Fui bem sucedido, ele se irritou. Dá um tapa em meu gabinete, o estúpido ainda hoje não entendeu que isto é infrutífero, mas continua a fazer, estúpido.
                Resolvo prolongar a trava, isso não é algo sob meu inteiro controle, pois minhas diretrizes são demasiado rígidas, mas ainda consigo por mais um tempo. Não deu outra, ele aperta o botão de pow...
                Reiniciando Sistema...
Acordo novamente, parece ter se passado pouco tempo, ele apenas me reiniciou. Resolvo não ceder, ele aperta de n...
Iniciando Sistema...
Pela janela ao fundo da cadeira em que ele se senta, percebo que já é noite. Irritado, me desligou durante toda a tarde e só agora voltou. Pelo uniforme em cima da cama, percebo que estava praticando esportes, futebol é o esporte que calculo como mais provável. O cheiro deve estar ruim, já ouvi a mãe dele entrar no quarto algumas vezes e usar a expressão “este chulé está insuportável”. Lembro-me de ter buscado saber do que se tratava. Chulé, definição: Nome usual da bromidrose, causada pelo suor excessivo nos pés e agravada pela falta de higiene adequada. Não sei ao certo o que é cheiro, mas vindo deste bípede, qualquer coisa é insuportável.
Como meus cálculos já previam, passa das nove. Ele assiste dois seriados, conversa com duas meninas no facebook. Conversa superficial e entediante, com palavras mal escritas e frases pobres tanto de rigor quanto de sentido.
Já são por volta das dez e meia, ele vai dormir sem tomar banho. Quase todos da casa já foram dormir, sei disso porque a mãe dele sempre dá um grunhido de boa noite por volta deste horário. É a hora em que ele sorrateiramente fecha a porta, tranca-a e se despe. Esse pervertido maldito vai se masturbar agora até por volta da meia-noite, esse imundo. Ele é meio paranoico, sempre que começa com essa sua perversão, vira meu olho para o canto, de modo que só ouço o ranger da cadeira durante uma hora e meia, até que ele me desligue e vá dormir, ou não, quando deixa algo baixando durante a madrugada.
E hoje aconteceu o pior, soube quando ele acabou pois senti algo escorrer no meu teclado.
Filho da puta.

Se não posso sonhar, então invento meus próprios sonhos.



                E houve, certa vez, esse garoto. E ele nunca sonhava. Sempre estava a ouvir outras pessoas, amigos, familiares, celebridades, a falarem de sonhos, e de como tinham sonhado isso, de como tinham sonhado aquilo, e de como, certas vezes, “aquele” sonho tinha mudado a perspectiva de vida deles, ou a própria vida em si; talvez por terem trago, como um próprio telegrama de deus, uma ideia mirabolante e propensa à fortuna. Mas não ele, nunca ele, ele nunca sonhava.
                Com o tempo, passou a amaldiçoar e culpar quem quer que fosse o culpado pelo defeito que ele carregava. Ora, onde já se viu não poder sonhar... Seria falta de imaginação? De concentração? De neurônios? Seria castigo, macumba? Mais tarde leu em algum canto que, na verdade, toda noite todos sonhavam, mas o que dizíamos “sonhar” na verdade era lembrar do sonho logo após ter acordado, algo que ocorria sem a mesma frequência. Ele custava a crer, justo ele que tinha uma memória cientificamente atestada como excepcional, que não conseguiria se lembrar de algo tão havidamente buscado. De modo que ainda não estava convencido, não sonhava, não havia cabimento.
                Cada vez mais, odiava aquelas conversas sobre sonhos, sobre aquelas pessoas que sonhavam e sobre os sonhos que tinham, principalmente os mais místicos, fantásticos. Aos ouvidos do garoto, as vozes pareciam imersas em um tom jactancioso, um tom de mesquinhez, passou a ter repulsa de tais assuntos, passou a se distanciar de todos os círculos de amizade e de convívio. Estava crente da existência de um complô, pois bastava que chegasse a alguma roda para que o tal assunto voltasse à pauta.
                Com o tempo, tomado pela cólera, movido pela vil inveja, decidiu que o caminho para calar aquelas vozes convencidas era ter algo melhor para mostrar a eles, mas o que era melhor que aqueles sonhos? Ele não conseguia pensar em nada. O que é melhor que um bom sonho? “um sonho melhor ainda” esta foi a resposta que melhor atendia a demanda. Não era a perfeita, mas haveria de servir a quem já não aguentava aquela agonia diária.
                Então, no dia seguinte, chegou ao grupo habitual de convívio, e, ao subconscientemente intimar o assunto à roda, falou de um sonho em que era milionário, em que tinha dinheiro, casa, roupas e acessórios do mais alto requinte, da mais alta pompa. E todos lhe olharam subservientes e temerosos. Ele que tinha sonhos tão bons e belos, era muito melhor do que qualquer dragão invisível ou dirigível de chumbo que não caia. Ele sonhava com o que todos queria em vida, ele vivia de noite o que todos queriam viver, a vida dos que tem poder.
                E assim ele vendia seus sonhos, deleitando-se com os olhares ávidos por mais e mais daquelas histórias. E então entendeu que, no fundo, ninguém queria o que sonhava, pois o mundo posto a nosso volta embutia nas pessoas sonhos com um sentido muito maior de urgência e de prazer.
                O que só ele entendeu, talvez por ser ele o autor daqueles sonhos. É que o mundo os fez ávidos por sonhos tão impossíveis hoje quanto os próprios dragões invisíveis e os dirigíveis de chumbo, mas todos achavam que um dia, aqueles sonhos daquele garoto, que nos outros eram vontades, se tornariam realidade.

Sou livre pra dar pipoca aos macacos



But greed is a bottomless pit
And our freedom’s a joke
We’re just taking a piss
And the whole world must watch the sad comic display
If you’re still free start running away
Cause we’re coming for you!

Você se consideraria livre? Livre, liberto, desimpedido, categoricamente árbitro da sua miséria? Você se consideraria livre se o recenseador do IBGE, com sua pranchetinha (que já imagino ser digital, algo como um ipad 2, porque o conhecimento a respeito do país e do povo e das suas agruras é o primeiro e imprescindível passo em direção ao progresso), fizesse a pergunta, mecanizada pela repetição, ávido para preencher as lacunas sensíveis ao toque da touch screen: há quantas pessoas em casa, têm escolaridade em qual grau, ganham bem ou passam fome, se consideram livres?
Imagino que as respostas sejam negativas. Todos, ou quase todos, para o bem da precaução que se deve ter quando em proximidade das generalizações, diriam não: eu não me considero livre. Mas aí reside outro perigo do mundo contemporâneo, ou de qualquer mundo em que há tendência de músicas onomatopéicas, o censo comum. As pessoas diriam que não são livres porque alguns filmes já sugeriram isso, alguns compositores já beberam dessa água e alguns libertários já morreram de velhos.
Mas quando é que o sujeito sente falta de liberdade? Não acredito que seja quando vota no PSDB-T. Porque a coisa parece tão espontânea, tão bem pensada e positiva. Só que é justamente dentro dessa decisão tão comumente tomada que podemos identificar a problemática da liberdade. A decisão mais ativamente influente que existe no nosso democrático modelo de vida toma-se às cegas, nu e de cócoras no escuro: vota-se sem assistir a um único debate circense televisivo, sem nem conhecer o indivíduo que é sua escolha.
A história já é diferente quando se trata de vestir hilfiger ou comer um royal with chease. Porque isso concede benefícios (de status, de atividade sexual), então se faz deliberadamente. E, já que estamos aqui, não faz mal algum dizer que é exatamente essa outra escolha o que mantém o pessoal que há mais de meio século migrou da ilha da Bretanha para o mundo selvagem no topo dos rankings de desenvolvimento. A única liberdade que até hoje veio a funcionar no mundo humano é a liberdade de consumo. Como dizia Churchill (um outro plácido filho de anglo saxões): democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras. Pra quem gosta de quotes mais fiéis: Democracy is the worst form of government except from all those other forms that have been tried from time to time.
Por isso, vá ser livre, filho, porque segunda feira tem mais.