Já, já, já, já, já vai!

          Muita atenção agora! Amanhã teremos surpresas.
          Se você está cansado de ser obrigado, pelo simples fato de ser parente ou conhecido de algum dos autores desse blog, a ler toda a merda que escrevemos, apesar do cansaço e da preguiça, e ainda aguentar que estes mesmos reclamem nos seus ouvidos por não comentarem, bem, isso não vai acabar. A questão é que amanhã teremos novidades.
          Um novo integrante se juntará a nós nesse epopeia de fazer posts para meia dúzia de amigos nossos. Mas isso não é tudo. Prepare-se, porque não serão convencionais posts o que esse cidadão deixará por aqui.
          É sexta feira, aguarde...

          Enquanto isso, curta algo dos nossos parceiros:


Mas como ninguém faz o que aconselhou JC...


Karma is a bitch!


Vida de frentista


Sobe, Calvo!


Seguindo a lógica das coisas: vegetarianos


Como deve ser a mulher ideal

Pós-Zumbis 2ª temporada(10)


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EFEITO

                O leitor já calejado na leitura desta série é conhecedor de meus caprichos no que se refere à escrita. Naturalmente, tendo terminado o capítulo anterior com “Era uma boa pergunta”, sendo esta uma frase que remete a Japonês e Bibliotecária, o natural seria eu desviar os olhos oniscientes deste vosso humilde narrador e pousá-los sobre a cabeça destes dois sobreviventes (sim, adianto que estão vivos) e lhes contar o que se passa com eles. Já me viram fazer isso algumas vezes, mas não é o que se sucederá hoje. Talvez devesse alguma justificativa, mas me abstenho de fazê-la. Por hora, contente-se em saber que estão vivos. Para contrariar as normas de suspense de um bom escrito, digo que este episódio e o próximo serão o eixo que dará um rumo concreto a nossos personagens e história, que até então não passara de uma série ininterrupta de desventuras. Mas, contrapondo-se a este conceito que lhes entreguei, e que pode gerar expectativas frustrantes, esse episódio tem um começo muito simples: Começa com uma dúvida comum.
Nossos personagens: Fronrel, Monquei, Camaleão, Choreilargado, R. e Albinati não sabem aonde ir. O devaneio sobre a situação do Japonês e da Bibliotecária os incomoda, mas não é nada se comparado ao medo de serem emboscados. Ainda não haviam saído daquele esconderijo para onde Choreilargado os havia levado. Fronrel começa a andar pelo local. O local tinha um aspecto cavernoso, mas era artificial, lembrava um cenário para gravações cinematográficas. Fronrel para em meio a uma pilha de objetos, começa a fuçá-la. Deveria estar a propor alguma alternativa, mas estava cansado do esforço de parecer ter uma alternativa a tudo, ninguém é de ferro. Um berrante, Uma réplica de la Gioconda, um pacote de camisinhas que brilhavam no escuro, um livro de piadas sobre minorias étnicas, uma bolinha de gude, um olho de vidro, uma representação do mapa nacional de 1500, uma carta de amor, um encordoamento de Chelo, um guardanapo com mancha de batom, uma calcinha usada.

Pensadores de verdade não deixam bilhetes



                Todos os pensadores que pisaram nessa terra comeram a poeira do ócio e serão enterrados sob camadas quilométricas de pó e esquecimento, enquanto seus livros são interpretados como bíblias: de cubos que se rolam até que virem bolas. Todos os pensadores tocaram a campainha da minha casa, mas nenhum teve a decência de deslizar um bilhete pelo vão da porta que me notificasse da sua visita.
                Eu tenho medo das três horas da tarde aos domingos e, por motivo disso, deixei-me a observar o relógio estacado na parede da sala: uma figura monstruosa, irregular e descompassada. Foi então que vi, num relance, a hecatombe das três horas dominicais. Quando o ponteiro, no seu passo arrastado de salamandra, saltou para cima do número três, sua extremidade afiada mergulhou na minha carne mole e quente e, num movimento contínuo de vai-e-vem, algo sexual, um coito necrofílico entre o presente e o que já não é, entrava e saía das minhas entranhas.
                Às três e um, eu escorria em pus e sangue; às três e dois, a ferida coagulada e fechada ainda estava quente e inflamada; às três e três, morri para deixar de viver mais à frente outras vezes ainda. Peguei um pedaço de papel e anotei as minhas conclusões semanais: meu pai será sempre mais velho do que eu.

Tédio

Muito já falaram sobre o tédio Muitos já ignorei!
Como pode um ser tão cheio de vida e com tantas coisas para se fazer, estar entediado?
Este mesmo ser que vive falando que não tem tempo pra nada e que tem muito a fazer...


Fazer
Ter
Ser
Crer
Viver
Aparecer
 

Morrer...
             ... de tédio!


Tédio só compreendido quando vivo
Vivido entre seus músculos
Enterrado em sua mente
Deitado em sua cama


 Depressão!
Um dia frio deprimente
Nada na Tv
Nem pássaro pra cantar
A chuva acaba de passar


Um dia perdido!
Quero fazer algo
Algo legal
Só não sei o que quero
Só quero...


Droga!
Amanhã tenho que trabalhaR
Endomingado?

A arte de produzir post sem causa


O post de hoje é dedicado a um dos meus autores nacionais favoritos: Lourenço Mutarelli.
Mais conhecido por seu trabalho nos quadrinhos (já ganhou diversos prêmios de melhor ilustrador) Lourenço Mutarelli também é um escritor da mais alta estirpe. Seu universo absurdo me lembra muito Kafka, de quem o autor diz receber inspiração. Os diálogos de seus livros são fenomenais, as cenas são rápidas e, mesmo muitas vezes absurdas, te dão uma perspectiva de realidade quase palpável.
Resumindo tudo em uma linha: Ele é FODA!


"- Quanto?
- 100. Máximo.
- É um Stradivarius.
- 112? ... (silêncio) ...esse violino deve ter história né?
- Isso aqui cheira merda.
- É, é do ralo ali.
- Num é não.
- É, o cheiro vem do ralo ali.
- O cheiro vem de você.
- Não. Não amigo, to com problema no banheirinho aqui oh. No ralo aqui.
- E quem usa esse banheiro?
- Eu
- Quem mais?
- Só eu
- Então. De onde vem o cheiro?" (O Cheiro do Ralo)

Esse é o tipo de autor que não se pode deixar sem ler. Além de O Cheiro do Ralo ele tem também A Arte de Produzir Efeito sem Causa, Natimorto, Miguel e os demônios, Jesus Kid e outros que me escapam a memória agora.


Jésus e o asteroide pequeno que todos chamam de Terra



                Jesus desceu, impávido como um caminhão de carga pesada. Foi como se alguém içasse o pobre homem, ainda pregado à cruz, do céu. A sua face era serena, aquela mesma cara de herói do mundo inteiro que deu pano para manga, ou seja, evangelhos e mais evangelhos. A cruz era de uma madeira maciça, muito bem acabada e envernizada, ao contrário do que muitos pensam, e talvez pudesse até ser de pau-brasil, mas José nenhum teria coragem de afirmar que aquele tom avermelhado não era simplesmente real sangue seco. Sua cabeça pendia para um lado (sua direita e minha esquerda) e as suas pernas, quebradas para encaixar no molde crucifixo, balançavam.
                Do alto, a não mais do que três metros do chão, seus olhos escrupulosos me encaravam calados. Não foi exatamente um fluxo de bênçãos o que se deu entre ele e mim, foi mais uma descoberta mútua. Afinal, o que é que se diz ao rei dos judeus, ao filho do criador de tudo, ao fazedor de milagres, ao fruto de uma concepção imaculada, ao homem que tem mais de meio mundo aos seus pés? Diz-se olá?, como vai?, ou talvez se diga esses pregos já vão enferrujados, dá cá a mãozinha para que eu bata um spray. E aqueles olhos meio cabisbaixos que só fitam, só fitam sem nem piscar, não saíam de mim; logo, as únicas palavras que puderam escapar da minha bocarra perplexa foram puta merda.
                A reação esperada para um homem de vida tão pública quanto Inri seria uma repreensão cruel e paternal, que enchesse as vistas dos transeuntes, contra um linguajar tão inapropriado e um tanto quanto diabólico. Mas a sua reação, e não questione as ações do santo rapaz, foi erguer um pouco a cabeça, soltar um abafado risinho rouco e uma frase imaculada, onde cada palavra foi se tornando mais nítida uma após a outra:
                - Sinto falta das putas e dos merdas, ah, para esclarecer-me, Maria Madalena e Pôncio Pilatos, onde andam estes?, ah, no céu perde-se a percepção do tempo, pode imaginar o que é parar para dar uma cagadinha e encontrar a janta fria e cheia de moscas em cima da mesa? Mas chega de falar de mim, tu já deves estar farto de jesus de cá e jesus de lá. E então, qual é o seu desejo?
                - Desejo? Do mesmo jeito que um gênio concede desejos? – eu perguntei, incrédulo e sentindo um formigamento na minha face esquerda. O que mais me encabulava era a maneira com que ele pronunciava o próprio nome, com uma ênfase exageradíssima no E, como se a palavra precisasse de um acento olvidado pelos milênios.
                - Não bem como um gênio. Eu só tento fazer jus ao meu nome e à expectativa que as pessoas têm do tão sonhado encontro com jesus. O que vai ser? Só não me venha com libertinagem, pergunte-se: o que jesus faria?
                - Mas você anda até hoje por aí numa cruz! Tudo bem: o que faria jesus?
                - Não, não: JÉSUS.
                - Tem certeza disso? Quer dizer, sem ofenças, mas todo filme ou padre que vi até hoje disse jesus.
                - Claro que tenho certeza, rapaz! Minha mãezinha, Maria, que deus a tenha (se bem que depois do divórcio...), deu-me este nome, jésus, vê como soa bem. Ah, até me lembro que isso foi uma sugestão de Gabriel, sujeito parrudo que fazia as obras de alvenaria lá em casa de minha família, muito amigo de mamãe, tinha cachos nos cabelos como estes meus. Pensou no que queres?
                - Cara, você me pegou de surpresa, pode esperar um pouquinho?
                - Não, não, tem de ser agora, tenho aula de patinação em gelo dentro de minutos!
                - Então volte na segunda.
                - Quer ver onde acaba a minha temperança e começa a minha fúria, rapaz?
                - Não, que é isso, não há motivo para animosidades, olha que admiro bastante toda essa coisa de cristandade.
                - Então peça!
                - Não sei! Mas, bem, que tal subir direto ao céu, sem morrer nem nada, que nem foi com a sua mãe.
                - Não, não, não queira isso. Segunda chance.
                - Então me garanta que, mesmo morrendo, vou para o paraíso.
                - Era mais fácil salvar os dinossauros da extinção!
                - O que quer de mim?
                - Cala-te e acorda!