Porque assim as nuvens vão embora


Pode me procurar
Quando nada mais nesse mundo souber teu lugar
Reconhecer tua silhueta ou ouvir tua voz
Pode me procurar
Quando não houver mais que silêncio entre nós
Ainda que em mim te sirva só o olhar

Corre até o meu lado
Se a chuva não der sossego pra tua cabeça
Ou mesmo o sol, o vento, a vida
Que eu te protejo

Molha meu pescoço com lágrimas
Quando apertar tua fronte em mim
Enche minha orelha de cores
Quando sorrir de verdade pra mim
Esquenta teus reumatismos
Nas minhas mãos febris por ti

Fica comigo
Enquanto nada basta e tudo falta
E a lembrança do teu rosto
É um sopro que espanta as nuvens de horror
Do céu da minha vida

Fica comigo
Porque desejo de gente que ama
Não se contraria
Fica comigo
Porque assim as nuvens vão embora, amor

Mulheres

•  Voltemos a 5,3 milhões de anos atrás: Primeiros hominídeos
•  Voltemos menos agora: século passado: 1975: Decreto da ONU oficializando uma data internacional: 08/03
•  Hoje! Data estelar: 12 do 03 de 2012: Quatro dias após o dia internacional da mulher

     Desde o surgimento do homo sapiens até o recente momento do século XX a mulher foi mal tratada e praticamente desprezada — a não ser para os fins reprodutivos e exceções. Isso pelo menos no ocidente (ou ocidentalizados), pois infelizmente em alguns países a mulher ainda é tratada como a escória.
     Infelizmente esse tratamento para com as mulheres muito se firmou nas religiões, até a culpa do homem ter que se esforçar para respirar fazendo contração de músculos, jogaram na mulher: quem foi a culpada pela expulsão do paraíso?

     "Algumas coisas nesse mundo nunca mudam! Já outras... felizmente mudam!"

     O Iluminismo surgiu e ligou o foda-se para religião e desde então muita coisa mudou! E como mudou! Começando pela visualização da mulher como um ser humano, tanto pelo homem como pela própria mulher. Tenha noção que a mulher não se via como um ser humano, como alguém que possuía direito além de deveres, e muito menos os homens enxergavam isso, se não tal submissão não teria durado tantos milênios...
     Com o racionalismo a mulher começou a ganhar seu espaço e eis o surgimento da revolução feminista. o qual as mulheres falharam! Sim, vocês perderam, mulheres! Fato!
     Vocês foram violentamente reprimidas em cada manifestações suas. Até mesmo a movimentação que deu origem a sua data foi em homenagem as mulheres que fizeram greves em uma fábrica de tecidos e por isso foram carbonizadas. Uma homenagem funerária e não uma homenagem honrosa de vitória e conquista.
     Prova maior de que vocês perderam é que vocês tiveram que se adequar a realidade masculina, se vestindo como homens para trabalhar entre estes e só conseguiram tal feito por necessidade do mercado. Que bom! Pois tal déficit foi a maior porta de possibilidade para a mulher ir entrando de jeitinho no mercado de trabalho, mesmo tendo que ouvir injurias, repressões e ganhando menos. Uma vez ativas e pensantes, ninguém mais conseguiu pará-las e espero que não se deixem calar nunca mais.
     Para essas mulheres que mostraram seu valor diante da vida, da sociedade e diante de si mesmas que merecem nosso respeito. Mas não seria a criação do dia internacional da mulher apenas mais um ato machista para reafirmar que os outros 364 dias são dos homens? Ou um ato para apaziguar as mulheres com rosas, flores, chocolates e mensagens prontas da internet para que essas deem um chega e deixe as coisas como estão?
     Não! Pois tal data internacional não foi criada que sentido tão vão para as menininhas ficarem iludidas pensando que seus amantes se importam contigo (não considerem "amante" pelo lado ilícito de como sendo aquele que comete adultério). Girl and Women, saibam que esse dia é um grande pedido de desculpa da humanidade para as mulheres por tudo que as fizemos passar (e não uma prova de amor dos homens, nem um reconhecimento por suas jornadas duplas e triplas...).
     E para cumprir com isso (o pedido de desculpas) a verdadeira função da data é marcar previamente e obrigatoriamente grandes conferencias (obviamente anuais) em quase todo o globo para debates e reuniões cujo objetivo é discutir o papel da mulher na sociedade atual. O esforço é para tentar diminuir e, quem sabe um dia terminar, com o preconceito e a desvalorização da mulher. Como por exemplo, esse ano como resultado tivemos no Brasil um projeto de lei que impede que as mulheres receba um salário menor do que o homem que exerça a mesma função.
     A essas poderosas e glamourosas femmes, as quais eu não conseguiria viver sem. Obrigado! e Desculpe por meus antepassados (homens repressores e mulheres que não se reberalaram)!

Frederico Pacência - Mário de Andrade

               Frederico Paciência… Foi no ginásio… Éramos de idade parec
ida,ele um pouco mais velho que eu, quatorze anos.

               Frederico Paciência era aquela solaridade escandalosa. Trazia nosolhos grandes bem pretos, na boca larga, na musculatura quadra-da da peitaria, em principal nas mãos enormes, uma franqueza,uma saúde, uma ausência rija de segundas intenções. E aquelacabelaça pesada, quase azul, numa desordem crespa. Filho deportuguês e de carioca. Não era beleza, era vitória. Ficava impos-sível a gente não querer bem ele, não concordar com o que ele falava.

               Senti logo uma simpatia deslumbrada por Frederico Paciência, meaproximei franco dele, imaginando que era apenas por simpatia.Mas se ligo a insistência com que ficava junto dele a outros atosespontâneos que sempre tive até chegar na força do homem, achoque se tratava dessa espécie de saudade do bem, de aspiração aonobre, ao correto, que sempre fez com que eu me adornasse debem pelas pessoas com quem vivo. Admirava lealmente a perfei-ção moral e física de Frederico Paciência e com muita sinceridadeo invejei. Ora, em mim sucede que a inveja não consegue se resol-ver em ódio, nem mesmo animosidade: produz mas uma compe-tência divertida, esportiva, que me leva à imitação. Tive ânsias deimitar Frederico Paciência. Quis ser ele, ser dele, me confundirnaquele esplendor, e ficamos amigos.

               Eu era o tipo do fraco. Feio, minha coragem não tinha a menorespontaneidade, tendência altiva para os vícios, preguiça. Inteli-gência incessante mas principalmente difícil. Além do mais, na-quele tempo eu não tinha nenhum êxito pra estímulo. Em famíliaera silenciosamente considerado um caso perdido, só porquemeus manos eram muito bonzinhos e eu estourado, e enquantoeles tiravam distinções no colégio, eu tomava bombas.Uma ficou famosa, porque eu protestei gritado em casa, e meu Pairesolveu tirar a coisa a limpo, me levando com ele ao colégio.Chamado pelo diretor, lá veio o marista, irmão Bicudo o chamá-vamos, trazendo na mão um burro de Virgílio em francês, igualzi-nho ao que me servira na cola. Meio que turtuviei mas foi um na-da. Disse arrogante:

                - Como que o senhor prova que eu colei?!

               Irmão Bicudo nem me olhou. Abriu o burro quase na cara de Papai, tremia de raiva:

               - Seu menino traduz latim muito bem!... mas não sabetraduzir francês!

               Papai ficou pálido, coitado. Arrancou:

                - Seu padre me desculpe.

               Não falou mais nada. Durante a volta era aquele mutismo, nãotrocou sequer um olhar comigo. Foi esplêndido mas quando ocondutor veio cobrar as passagens no bonde. Meu Pai tirou com toda a naturalidade os níqueis do bolsinho mas de repente ficouolhando muito o dinheiro, parado, olhando os níqueis, perdido emreflexões inescrutáveis. Parecia decidir da minha vida, ouvi, che-
guei a ouvir ele dizendo “Não pago a passagem desse menino”.
               Mas afinal pagou.

               [...]

               (Mario de Andrade. "FREDERICO PACIÊNCIA", in Contos Novos).

Com o tempo o contemporâneo virou retrô


                Desde que fizeram revolução na França, vivemos no que os estudiosos chamam Idade Contemporânea. Já tivemos duas guerras europeias que de mundiais só tinham a capacidade de matar; revolucionários ditadores e ditadores revolucionários; mulheres que morreram pela liberdade e algumas que se tornaram adeptas da prática de liberar estranhamente demasiado. Inventamos tecnologias que nos permitem tanto, mas permitimos que façam patentes das nossas cabeças.

                Na minha leiga mente provinciana ainda não compreendi se este período em que vivemos só será contemporâneo até que decidam seu fim e a ele deem novo nome.  A Idade Moderna é a que já passou. Já deixamos de ser modernos e aonde vamos? O que será feito de nós quando os prefixos que procrastinam as mudanças – pós ultra neo super – acabarem? Estaremos perdidos, pois o que deixa de ser moderno, deixa de ser desejado.

                “Tudo é descartável”. Essa é máxima do século. Se você for cria da internet (gente que mal tem duas décadas), estranhará, assim como eu, hábitos de pessoas mais velhas. Costumes abandonados, como levar um sapato para o conserto, uma roupa ou até uma panela. Hoje em dia não consertamos nem televisões ou computadores: o frenético avanço tecnológico nos compele a comprar o novo, porque tudo tem seu prazo de validade e ele é curto e ele é fatal.

                A música é um dos aspectos mais interessantes para evidenciar esse fenômeno previsto em qualquer uma das duas clássicas distopias da literatura (1984 e Admirável mundo novo). Todas as canções são breves; não só em duração, apesar de também nela; perduram por períodos curtíssimos, que nem aquelas que só vivem durante um carnaval. Descartáveis. São quase todas tão vazias, falam de estar solteiro e não mais estar, de beber e fazer festa, de sexo e mulheres promíscuas. Perdoem o meu discurso se ele parecer puritano demais, mas há de se convir que a promiscuidade por aí é intensa!

                Não estou me isentando de culpa e colocando tudo na conta do “sistema” ou da “sociedade”, essa lorota já morreu de velha. Como eu já disse alguma vez antes, a culpa é nossa, é minha. Se é mais vantajoso comprar um novo produto descartável do que fazer uma visita ao “misterioso lugar onde se fazem consertos”, por que alguém faria essa escolha de forma diferente?

Um fim de mundo que começou num vaso de flor

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—Por que um cristal?
—A textura. Ele é liso como céu. Ele é frio como céu. Você olha dentro dele e pensa ver o céu.
—Um céu bem pequeno.
—Ninguém sabe quantos mundos têm aí dentro.
—Eu acho que tem como saber o número.
—Exatamente?
—É.
—Como?
—Contando seu nível de loucura.
—E como é que conta um nível de loucura?

Pés de Galinha


                A impiedosa estrada que é o tempo, que se esfarela logo atrás da sola do pé, inviabilizando uma possível volta. É o tic-tac impávido que não para nem volta, não desacelera, não tem piedade. Por definição científica, o segundo dura 9'192'631'770 períodos da radiação do átomo de césio 133; para nós, homens ordinários que mal sabemos definir um período, os segundos são as pequenas parcelas de um pagamento em que a moeda é nossa vida.
                Há muitos que se assombram mais com a velhice decrépita do que com a morte, há muitos que se assombram com qualquer hipótese de velhice.
                A gradual perda das funções motoras, o desbotar dos cabelos, a sua eventual queda, a perda do apetite sexual, o desfazer da beleza, a fragilidade da saúde, a menor agilidade para raciocínios…
                A velhice trás consigo o acalento das memórias e o contentamento em ser feliz com elas. A ideia gradual de estar em um mundo que, por mais adaptado que você esteja, não é mais o seu. Um mundo que seguiu adiante com pessoas, concepções, tecnologias e ideias novas; muito provavelmente bastante diferente das suas.
                O olhar cúmplice destinado à companheira, que você ainda ama, mas de forma bem diferente, talvez mais nobre, mas menos acalorada. Veem-se como companheiros que viveram provavelmente as melhores experiências, mas que agora tinham de se contentar com isso. Contempla-se um porta-retratos mais antigo e percebe-se que aquele garoto vigoroso e que transparecia vida agora já estava surrado pelo tempo, e aquela garota de corpo escultural e sorriso radiante estava mais recatada e serena.
                Os jantares aos domingos; a rotina médica; os óculos de grau cada vez mais severos; as mãos cada vez mais trêmulas; as rodas de carteado... O sorriso cansado.
                O que a velhice tem de trágica também tem de bela. Pois aqueles que até ela chegaram, e não é um percurso fácil, podem dizer: “EU CHEGUEI ATÉ AQUI”. Sim, chegou. Você viu o que muitos não conseguiram, testemunhou o que muitos da sua juventude talvez julgassem impossível. Você ainda vive, ainda que sem tamanha intensidade, consegue arrancar alegria das coisas mais simples, que agora você percebe serem tão significativas, e não é disso que se trata a vida?
                Você contempla os seus erros passados e ri de alguns, se envergonha profundamente de outros, esconde alguns tantos... Afinal, apesar da cabeleira branca que confere um respeito quase beato à sua pessoa, você é humano, e sendo humano já foi jovem, e se já foi jovem já fez merda.
                E no final, quando a senilidade se mostra bastante agravada, e você só é uma sombra, um esboço de outrora, é que entende que a vida tem de ser assim e não haveria de ser de outra maneira, e entende também o quão pífios e insensatos são todos esses dramas acerca da velhice e da morte, que não são nada mais, que mais uma parte da tão valorizada vida.