...
A festa caminhava bem, na bera da piscina, sob a lua cheia, com ótima música, excelente carne, bebidas variadas e com risadas levemente até que alguém empolgado resolve soltar fogo de artifício e acaba incendiando a casa do vizinho acidentalmente. Chamas surgiram, se expandiram e se espalharam numa velocidade surpreendente. Saía tanta fumaça da casa que no reflexo da piscina parecia até sair da própria água tal imagem. Novamente aquela mesma situação da manhã. Smoke underwater. Fire in the sky. Resolve então mergulhar atrás. Ohhh Barracuda!
Dessa vez a água adquiria uma densidade diferente. Era a mesma água salgada de antes, mas diferente. Upside down. Um redemoinho então surgiu e o puxou mais para baixo, foi quando percebeu que no meio de águas agitadas seu centro é calmo e seco. De repente estava em um local calmo e seco, seco o suficiente para perceber que ali não chovia a meses.
Em meio ao desespero que lhe abateu de forma inexplicável começou a correr até não saber mais se estava molhado pela água, suor ou lágrimas, e foi isso que o fez pensar "qual a diferença entre aquela água marítima de antes com outro fluido corpóreo qualquer? o que lhe da a certeza de que aquilo não seria um mar de lágrimas?"
Esse pensamento não foi adiante, pois naquele momento achara no horizonte aquele mesmo caballu de sua manhã, mas com uma diferença, quando este o viu, fez uma afeição sorridente.
— Que bom que você voltou! — Pronunciou o mamíferanfíbio ungulado hipomorfo silvestre.
— Mas achei que você me queria expulso daqui. — Indagou o homo sapiens.
— Era a única maneira de saber se você realmente pertencia ou não a este lugar. Ninguém pode te expulsar, apenas você mesmo.
— E que lugar é este mesmo?
— Naquele onde você aprende a diferença entre a felicidade do saber e a felicidade da ignorância sem negligenciar nenhum deles e saber conviver com ambos... Para isso começaremos por contar mentiras para mostrar a verdade.
— Isso é tudo meio confuso para mim, poderia me esclarecer um pouco melhor as coisas antes de começar sei-lá-o-que que você iria iniciar? Como poderei saber que posso confiar em você?
— Qual serei a graça se pudesse... e não se preocupe, ao longo do "tempo" as coisas se esclarecerão, apenas lembre se daquele momento de sua infância em que você pensava ser possível alguma coisa e tentava com uma fé incondicional, sem nenhum medo de tentar, sem nem mesmo pensar muito naquilo, já que nem muito conhecia as leis que regiam aquele universo. É sobre o poder que o humano possuí em seu genes, mas que se torna inacessível a medida que se corrompia. O acesso aquilo que chamas de paranormalidade, que de normal tem de sobra, porém não muito comum, pois, claro, não tens tempo.
— Como aquelas meditações que pessoas ficam anos paradas sem comer ou beber nada e sobrevivem?
— E vivem! Sim, de certa forma também!
— Posso só antes voltar para minha casa e pegar meus óculos de leitura?
— Claro que pode.
— E como faço para acordar?
— Isso não é um sonho para ficar acordando, basta lembrar se que está com pressa de fazer algo, estar atrasado para alguma coisa e ter a sensação de que deixou a porta destrancada. Falar nisso, você lembrou de desligar a luz antes de trancar a porta? Você trancou a port- [?]
Luz ao céu! Eletromagnética. Fótons. Onda. Partícula. Aquecimento. Reflexão. Refração. Difração. Absorção. Iluminação!
Claros raios do sol nascente vindos do oeste...
Solenes Arrependimentos
Creio que uma das maiores mentiras que se ouve no
cotidiano da convivência é a expressão “só me arrependo daquilo que não fiz”. Provoca-me
simultaneamente o riso e a perturbação. Fico na dúvida de saber se quem profere
tal frase de fato crê nela, ou se simplesmente se engana em um orgulho atávico
que lha impede de assumir uma das maiores consequências do humano, o erro. O
erro, fatal, inerente, intermitente, concatenado ao Homem.
Pobre iludido, em minha opinião, aquele que profere
conscientemente tamanho absurdo. Frase orgulhosa, leitmotiv (intrínseco, claro
está, pois é a ideia da frase e não a frase em si) da perpetuação dos erros e
dos diversos relacionamentos, tanto amizades quanto amores, rompidos. O
engraçado é abdicarmos de tal pensamento nos momentos em que nos é conveniente
apenas. Ocasionalmente, quando admitimos equívocos, em grande parte não o
fazemos por de fato termos refletido e estarmos intencionados em evolução, mas
sim para atenuarmos alguma punição ou eximirmo-nos de culpa, ou seja, tentamos
atenuar o erro, não deixar de fazê-lo. Queremos apenas que ele seja visto de
forma mais branda, não queremos eliminá-lo. Assumimos o erro para poder
continuar a cometê-lo, e conscientemente na grande parte dos casos, livremente.
A premissa do “errar é humano” descaracteriza-se em liberdade para que possamos
cometer atrocidades diversas.
Se errar é humano, como diz a célebre frase, crer que
não erramos, e que por isso não nos arrependemos de nada que fizemos, é nos dizermos não humanos. Mas se errar é humano, devemos nós também, por obrigação, não
admitirmos o nosso erro de forma tão branda, como se o costume do perdão fosse
um coringa toda vez pronto a erguer-se para nos eximir da culpa. Não devemos
aqui começar a erguer o dedo inquisitório na cara do vizinho dizendo VOCÊ
ERROU! Mas devemos FRANCAMENTE e COM DISPOSIÇÃO PARA REVISÃO, rever nossos atos
maculados.
Talvez a conclusão que se chegue é que, em grande
parte dos casos, quem profere “só me arrependo daquilo que não fiz” sabe perfeitamente
que errou, mas está tão acostumado a se eximir da culpa pela premissa do erro
como humano, mesmo que inconscientemente, que já não se arrepende de ter
errado, mesmo que o erro tenha sido grave, mesmo que tenha lhe custado algo ou
alguém.
E os leitores, que acham?
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Ps: Gostaria de deixar meus mais felizes cumprimentos ao nosso redator, Alisson! Pelo seu aniversário! (08/06)
Parabéns! Que muitos sigam este!
Ps: Gostaria de deixar meus mais felizes cumprimentos ao nosso redator, Alisson! Pelo seu aniversário! (08/06)
Parabéns! Que muitos sigam este!
O complexo da solitude e o Homem Vitruviano II
O peixe boiava morto no aquário redondo da
mesinha, quando ela acordou toda molhada, o pijama e a cabeleira armada,
pensando ter mijado uma caixa d’água inteira.
Sentou-se. Tateou a parede e apertou o
interruptor que deu início ao jogo elétrico do sopro na sequência de dominós em
pé: uma cadeia que não acabou com um último dominó deitado, mas com uma lâmpada
acesa, claro. Após a dor que a luz repentina deu naqueles olhos rosados, viu o
quarto inundado, um mar em quatro paredes cujas algas, corais e navios
naufragados foram trocados por livros, quadros, meias sem pares e o restante da
mobília. E antes que pudesse correr por sobre a cama para chegar até o extremo
oposto do quarto, onde havia uma porta fechada, a água já havia alcançado seu
pescoço, porque subia vertiginosamente rápida.
No outro cômodo, dormia um cachorro
peludo. Talvez ele sonhasse no exato segundo em que sua narina foi inspirar o
que pensava ser ar, mas era a água que explodira de repente a porta do quarto
ao lado. Morreu enquanto a água foi adentrando a casa na forma de uma onda em
cuja crista surfava frustrantemente a moça de olhos rosados.
A onda circulou a mesa de jantar,
levantou o sofá, ultrapassou umbrais, deu com a porta da frente, quebrou-a,
venceu o muro de dois metros, crescia, foi parar na rua e, em segundos, a
cidade boiava num dilúvio embaixo de um céu azul, sem nuvem. A merda toda era
que não existia um deus naquele lugar que tivesse mandado a menina construir
com antecedência um barquinho de lego.
Assim que as árvores mais altas da rua
começaram a ficar submersas, surgiram uns braços nadando entre as marolas e
borbulhas em volta da menina cujas íris cor-de-rosa eram só parte da fantasia
branca que seu par de genes recessivos para cor de pele havia imposto desde o
colapso dos gametas. Albina. Sua carapaça branca ainda tingia-se do branco do
protetor solar, acortinada pelos cabelos que combinavam com o de sua avó.
Carregava a expressão da face feminina da Monalisa: aquele ar extraterrestre
dos rostos sem sobrancelhas. Carregava também um caderninho de capa preta com
seus poemas e seus desenhos proibidos.
Os desenhos proibidos agora se desfazem
enquanto o papel derrete embaixo do mundo aquático. Eram tudo um só: mil cópias
do Homem Vitruviano que a albina enxergava ao ver o corpo do rapaz se alongando
na beira da piscina em dias de natação. Mesmo que ela sequer soubesse o nome do
rapaz, pelo mesmo motivo que não sabemos o nome dela, havia paixão e gozo na simples
transcrição da anatomia do nadador. Isso porque, incansavelmente, os olhos rosados
dela tinham que percorrer os pequenos detalhes dele enquanto provocava o fetiche
em conter a vontade de gritar: seu lindo, olha pra mim, bem aqui, esse ponto
branco na arquibancada! Mas a arquibancada era branca, então ela estaria camuflada,
assim como estava todas as vezes em que ele tinha a hipótese de notá-la ao seu
lado, com os olhos crescidos atrás das lentes da lupa que usava para desenhar
mais perfeitamente os círculos psicodélicos que eram as digitais dele.
Talvez essa ignorância fosse só paranoia,
pois no dilúvio cujo nível crescia e cresceu até que aquele aguaceiro cruzou
todo cerrado e fez foz no Atlântico, surgiram uns braços nadando entre as
marolas e borbulhas em volta da albina. Braços que de longe ela identificou como
pertencentes ao Homem Vitruviano, não esticados entre a perfeição dos vértices
de um quadrado sobrepondo um círculo, mas nadando apenas. Braços que se achegaram
e pararam os movimentos natatórios. Por um breve instante, os dois boiaram
frente-a-frente, ninguém disse palavra, nem as palavras inaudíveis que só os
olhares fazem, por causa do balanço frenético das ondas e do rufar incessante
das asas dos albatrozes. Mas, de repente, ele levantou aqueles braços e pôs as
mãos sobre aqueles olhos rosados que, aliás, eram a torneira pela qual saía a
torrente de água.
Acontece que, na noite anterior, a albina
fora dormir pensando no quanto queria tocar, cheirar, brincar com os cinco
sentidos e todas as frutas da salada mista junto ao nadador. E deixara a
torneira tão aberta que na horinha em que o nadador interrompeu a torrente com
as mãos, seu organismo que, assim como o meu e o teu, seria 70% composto de
água era uma enrugada uva-passa, seca, pequena e, finalmente, não mais branca:
vermelha. Vermelha pelo sangue comprimido e de vergonha, afinal sentia o toque das
impressões digitais que já havia mapeado há muito tempo.
Quem diria, ela se ruborizou mais ainda
quando o nadador tirou as mãos dos olhos rosados e lá pôs o sebo de seus próprios lábios
para enfim as lágrimas coagularem.
Ultraviolento
A história escrita por Anthony
Burgess é considerada por alguns como integrante do chamado “tripé das
distopias literárias”, ao lado de Admirável mundo novo e 1984. Realmente
enquadra-se nesse ramo, mesmo sem o apelo para mirabolantes desenvolvimentos
tecnológicos, e sim para o extremo das ações humanas. O enredo caracteriza-se
como uma deveras profunda crítica à sociedade e, atemporalmente, ao ser humano.
Indivíduos que se entregam às
drogas, à música pop massificada, à violência e à discriminação declarada das
minorias; governos maquiavélicos, mentirosos e conspiratórios; sistemas
públicos falhos e corruptos: onde está o limite entre a ficção e a realidade?
Nós somos aquilo, mas ainda
tentamos nos esconder da verdade. Segundo Renato Russo, “nos deram espelhos e
vimos um mundo doente”. Ainda num diálogo intertextual, é como no texto dos
‘Nacirema’: espantamo-nos com as barbaridades, até que percebemos quão bárbaros
somos.
Outro ponto interessante é a
Técnica Ludovico. O sistema carcerário, incapaz de reformar os cidadãos
descumpridores da lei, aliado ao governo, interessado em obter resultados
manipuláveis para angariar prestígio político, lançam mão de um método de
lavagem cerebral que tornasse o sujeito incapaz de cometer atos criminosos. De
um lado, o governo e os mais radicalistas consideram interessante a aplicação
de tal procedimento visando à diminuição dos níveis de violência, de outro, a
oposição e a igreja – essa preocupada por perder os preciosos pecadores e
redimidos, aquela participando o corriqueiro jogo político – alegam a perda do
livre arbítrio e a crueldade empregada.
Alex torna-se uma mera cobaia, joguete na mão das facções políticas. Um
homem que tinha tudo o que queria enquanto vivia no crime e perde tudo e é
rejeitado quando “reabilitado”. A família e os amigos o abandonam, só lhe
restam aqueles com interesses mesquinhos.
Não sei
ao certo qual a intenção aí contida, mas talvez a ideia seja de que a ciência
ainda não é capaz de controlar completamente o homem.
Cyber Vida
Estamos na era da computadorização, de modo tal que
já não nos damos com a remota possibilidade de viver sem determinadas
ferramentas da atualidade. Sou completamente a favor das novas tecnologias, do
avanço propiciado à medicina e tudo mais que esta onda tem como efeito, porém,
como tudo no homem, é o destempero, a ausência da justa medida que me causa medo.
A força-motriz deste post foi minha tomada de
conhecimento de um produto que a Google vem desenvolvendo. Chama-se: Google
Glass. Trata-se de um óculos de realidade aumentada, ou seja, trará integração
direta de diversos serviços diretamente nos seus olhos: Serviços de mensagem,
videoconferência, informe das horas, temperatura do ambiente, GPS, serviço de compras,
agenda, câmera, dentre outros serviços. Tudo isso diretamente interligado a
você, e a ferramenta é administrada por controle de voz.
Naturalmente que se trata de uma ferramenta
revolucionária, algo que trará agilidade e comodidade (ainda mais) à vida
humana. E naturalmente que tem pontos extremamente vantajosos, mas será que
estamos no caminho certo? Será que tudo tem de ser assim tão automático? Há,
por exemplo, uma cena no vídeo demonstrativo do produto (ao final do post) em
que o sujeito entra em uma loja (o vídeo é em primeira pessoa) e, ao entrar,
pergunta ao óculos, “onde está a sessão musical?”. Realmente precisamos deste
nível de urgência? De não poder nem mais se dar ao prazer de ir percorrendo uma
livraria em busca do que se quer? Mas nem é esse o grande dilema que este
adereço me fez refletir, a questão, para mim, é: Onde isso para? É fácil, o
óculos é removível, no momento em que quisermos, o tiramos do rosto e já está,
mas e quando começarmos a embutir tais mecanismos irreversivelmente em nosso
corpo? E não sou um destes saudosistas antitecnológicos, muito pelo contrário,
sou um grande entusiasma das novas tecnologias, só creio que talvez o homem
esteja embevecido demais com tais artigos para se lembrar de coisas mais
humanas. Não quero soar conspiratório, mas tenho medo de uma possível época em
que as máquinas sejam um adereço indispensável até mesmo nas mais simples
interações humanas. A nossa necessidade pelo prático nos tem feito cada vez
mais esquecer que o comum, que o natural, que o artesanal também tem sua
beleza, também tem seu valor.
Fato é que ainda subiremos muito nesta escada, mas
deveríamos refletir mais sobre as relações humanas neste sentido, no “onde” o
convívio indispensável com as máquinas está nos levando.
Well, confesso agora que, ao reler o texto, não sei
se ele ficou muito claro, mas era só uma espécie de medo reprimido. O que vocês
acham, leitores?
Video demonstrativo das funções do Google Glass:
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