1859 passou 2013 passará e ainda continuaremos aqui para te atormentar!

     E se este fosse um dos últimos textos que você lesse este ano na internet? ...ou nesta década? ...ou na vida? Seria em um tom de teoria conspiratória e anunciador profético de verdade absoluta se eu instigasse a pergunta "e se os Mais não estiverem errados?"? Eventos grandiosos possuem uma leve margem de erros, ainda mais quando previstos com tanta antecedência...
     Para polpar palavras, um vídeo mal legendado para vocês:


     Triste, não? Pessoas podem morrer e podemos retroceder décadas em evolução tecnológica... Mas convenhamos, você só pensou "E agora, como vou jogar meu pacman e baixar minha músicas e filmes ilegalmente? Tomará que não aconteça." É engraçado como a primeira instância somos tão egoístas.

     Ahhhh... querem saber? I don't care! Eu poderia dissertar aqui linhas e mais linhas de devaneios sobre o futuro e possíveis consequências geradas pelas consequências de tal tempestade solar, poderia ter postado isso há duas semanas atrás, falar que isso, retrocesso tecnológico, é bobagem, por inúmeros motivos, mas percebi enquanto eu começava a escrever que Eu não me importo!
     Não aguento mais conversa apocalípticas e de morte. No fim vai ser só um assunto para se postar em redes sociais e uparem; Padres, pastores e religiosos fanáticos indo as ruas vendendo o melhor paraíso e o jeito mais fácil de salvar sua alma; Pessoas idiotas falando YOLO e alguns outros idiotas mais requintados falando Carpe Diem; Além de mais Chattertons para eu ter que ouvir.
     Não vejo que valha apena mudar minha rotina só porque o mundo pode acabar (o que nisto inclui minha vida). Se você, digníssimo leitor, se preocupou desesperadamente com a notícia e com o que deve fazer agora, só posso dizer que você leva uma vida medíocre, miserável e mesquinha!
     Por que têm tanto medo das intermitências da morte? O que muito você ainda tem que fazer neste planeta que já não podia ter feito antes? Se não o fez foi por falta de vontade e determinação e não por tempo! Ninguém te impediu de fazer! Se houve empecilhos, foi você que se deixou reprimir diante a eles. Faltou lhe tempo? Conte-me mais como foi produtivo suas horas diante a televisão, redes sociais, sitcom, jogos e filmes de super heróis. 
     Você não está bem consigo mesmo e precisa de mais tempo? Relevou os clichês sobre não deixar para fazer amanhã o que pode fazer hoje? Sempre achou que o que há de mal, como acidentes mortais inesperados, acontecem somente com os outros e se reconforta com o pensamento de estar ciente de que sabe que pode acontecer com você, e esse saber irá, de algum, modo prevení-lo? Decidiu esperar porque achou que seria difícil demais fazer por agora e seria melhor daqui alguns anos quando tivesse dinheiro? Quantos projetos você já adiou com base nesse pensamento e que nem se lembra mais?
     Está convicto com todas as suas forças de que não vai morrer nestes próximos minutos, não é? Você já tem algum legado a deixar para aqueles que ficam? Ou prefere ser lembrado somente, e não mais que, por uma geração, quiçá duas, devido só a lembrança de seus amigos e parentes, os quais preferem não tocar no nome dos mortos mais que o necessário, para deixá-los descansar em paz.

Nem eu que já passei no vestibular... (a respeito dos 50% para cotas)


Agora vamos falar sobre as cotas. Essa semana pintou um projeto que, se completamente aprovado, determinaria (obrigaria) que toda universidade federal destinasse cinquenta por cento das suas vagas para as cotas. Hoje em dia, a UFG reserva vinte por cento de vagas para as cotas.

O nosso reitor (um cara legal, que inclusive recusou-se a cortar o ponto dos professores grevistas, indo contra a determinação do governo) manifestou-se a respeito do assunto: “Para chegarmos ao modelo que temos hoje na UFG, realizamos um ano e meio de debates na instituição, até amadurecermos a questão e definirmos a melhor modalidade de acesso às cotas”, afirmou Cull... quer dizer, Madureira.

Isso é um assunto delicado, obviamente. Até porque se trata de uma tentativa (mesmo com as falhas que tiver) de corrigir séculos de marginalização sofridos por alguns grupos étnicos e sociais brasileiros. Mas imagino que também há um consenso quando se diz que cotas são um paliativo. Deve-se melhorar o ensino público, deve-se realizar a reforma tributária, entre outras medidas mais concretas.

Concordo que cotas devem ser rigidamente reservadas para os estudantes de escolas públicas. Porque permitir que somente as famílias com recurso financeiro suficiente para preparar seus filhos em instituições particulares cursem o ensino superior público é perpetuar a abismal diferença social no país.

Mas a respeito da cota racial, aquela denominada “negros que cursaram ensino médio público”, já tenho minhas dúvidas. Isso pode muito bem ser ignorância minha. Vejam bem, reconheço que pode ser ignorância e peço gentilmente que, nesse caso, ela seja esclarecida por alguma mente mais iluminada. Discriminar (no sentido de selecionar) dentro dos alunos de escolas públicas aqueles de pele negra não seria uma espécie de racismo? Porque os ‘injustiçados e marginalizados’ são todos aqueles que não têm outra alternativa a não ser caminhar aos trancos e barrancos por anos no precário sistema público de educação. Essa cota racial não seria simplesmente dizer que, entre os injustiçados, há alguns com uma desvantagem extra, a de ser negro?

E convenhamos, essa política de obrigar que metade das vagas universitárias seja para cotas é uma maneira de fugir das reais responsabilidades. Um pensamento mais ou menos assim: Ah, nós não precisamos nos esforçar muito nessa cruzada de arrumar a educação básica; garantimos que muitos deles entrem na faculdade e pronto, não é isso que querem?

Estou aberto ao diálogo, meus caros.

Os acrobatas que já não pulam mais



A cortina vibrou.
Lá atrás do picadeiro estava escuro, mas Febo podia ver a sequência das mil cortinas que se abriram no mundo naquele dia. Podia ouvir o barulho dos tecidos correndo nos trilhos com violência, sofrendo da hipnose que emitiam mil estampas sendo arredadas para dar lugar a mil imagens aleatórias.
A cortina se abriu: a plateia estava cansada e bêbada demais para aplaudir alguém além da coleção de pierrôs anões que já haviam feito seu número mais cedo. Das tábuas suspensas, onde todo mundo estava sentado, vinham apenas burburinhos enfumaçados de cigarro para dizer bem-vindo ao Febo, entra aí e te apresenta, pula, balança e cai, porque viemos te ver morrer.
Ele não era o acrobata, era a bicha e todo mundo pensava assim quando o viam se esticar com seu macacão colado de dançarina de balé que não foi feita para brilhar na erudição de um teatro, só dentro duma sufocante tenda de um circo. Para sempre. Nômade e mal interpretado, para sempre.
Quando ele se apresenta nas alturas, na arquibancada os corações não param mais. Porque o tempo que aquilo tudo divertia acabara e hoje as jaulas que mantinham a monga e os elefantes estão mais vazias do que o estômago ulcerado do acrobata Febo e da turma inteira. O único mágico que viera com o talento na família estava preso por desrespeitar aquela lei protetora dos animais. Assim que o mágico tirou a revoada de pombas do ouvido, um cara qualquer com carteirinha de ambientalista carimbada com o certificado da hipocrisia levantou a voz e parou o show.
― But the show must go on, disse o mágico, no que o ambientalista se alterou e exigiu respeito, porque era parte do público e o público era respeitável, público! Mas que nada, foi preso mesmo assim. E o nome do mágico era Apolo, não que fosse regra o nome dos artistas daquele circo serem também de um deus grego, pois Apolo se trata de Febo e Febo equivale a Apolo, assim como Guilherme está para William e Job para Jó. Acontece que a lei da física que diz que peneira de buraco grande não segura água aplica-se também na questão da prisão de um mágico. Mágico não se prende, não senhor. Quem estava na jaula era um ventríloquo com tamanho de gente grande, que falava com o dom da fala que Apolo lhe dera. Ficara lá no canto onde se diz popularmente que o sol é quadrado enquanto o Apolo, gênio acima de mágico, voltara ao circo com a cara nova de alguém que precisa de uma nova identidade. E quando sua mãe, barbada que só, estendeu os braços para o filho que estava livre para desmistificar o mundo, mas voltava ao circo, como se fosse séssil ao mesmo tempo em que era nômade, ela disse:
― Apolo, venha cá, me dá um abraço. Ele disse:
― Não sou mais Apolo, não sou mais desnorteado. Tenho duas extremidades agora, mas o mágico ficou na cadeia. Vou balançar no trapézio e me virar do avesso, porque sou Febo, o acrobata! E todos se espantaram quando notaram que ele tinha levado isso tão seriamente a ponto de não querer mais passear com as mãos dadas às da mocinha de boca vermelha. Vermelhíssima! Ela usava o batom que ganhamos na batalha lambuzada contra a crosta dura das maçãs-do-amor. A menina era bonita, você pode vê-la na arquibancada todas as noites de espetáculo, mesmo nestes dias em que só resta a saudade daqueles outros dias em que ela passeava com Febo e eu não passeava com ninguém.
Ela queria dar um abraço no seu amorzinho, no seu lindo. Aquela roupa de bailarina que ele colocava provocava uma coceira entre suas pernas num lugar em que a malha da calça nunca teve etiqueta. Implorava para o menino que sua outra personalidade voltasse, mas ele dizia e repetia que Apolo e ele eram feito as torres gêmeas e negras num tabuleiro de xadrez, cada uma num polo. E foi assim que começou a queda do acrobata para o chão sem rede de segurança, pois a apaixonada, em seu desespero, foi contar ao ambientalista que na prisão não tinha mágico, tinha uma marionete em seu lugar.
Então, na noite em questão, em que a cortina vibra antes de abrir para a entrada de Febo e alguém no escuro da plateia o chama de bicha, ladrão e maconheiro, observamos que o homofóbico ali é só alguém magoado, é a menina da maçã-do-amor ao lado do protetor dos animais que já sabia da farsa toda, sabia que uma torre era a outra e que elas estavam fodidas. Iam cair, quem visse a cara do menino dentro do macacão saberia, ele estava exausto de não ser aplaudido. Pois subiu a escada, agarrou o balanço e pulou sem que houvesse mãos firmes do outro lado do abismo do trapézio.
Febo caiu, mas já não existia mais para pular de alegria quando seu corpo fez um estrondo no chão e seguiu-se a calmaria dos inúmeros corações silenciosos que pararam na arquibancada. Afinal, o show foi de tirar o fôlego e todos aplaudiram.

Narrativa retalhada 4/5

Peço desculpas pelo atraso da minha parte da história... Mas, enfim, aqui ela está!
Partes Anteriores: aqui!
*****

                ... Antes que pudesse terminar o raciocínio tudo estava nebuloso e desconexo, não havia desmaiado completamente, mas não conseguia pensar, não se conectavam as palavras e seus sentidos, me era extremamente difícil formular qualquer pensamento concreto que fosse. Por fim apago.
                Para logo depois acordar. Estava em uma sala, tinha a ligeira impressão desta pertencer aos fundos da livraria, mas de certeza só tinha a de estar vivo. E havia este homem, parecia homem, parecer e ser têm suas diferenças.
                _ Olá. – diz o homem.
                _ Oi. – respondi
                _ Então você é Grégore...
                _ Não sei.
                _ Mas acha que é?
                _ Acho que sim. E você, quem é e o que quer de mim?
                _ Meu nome é Eugênio.
                _ Eugênio!? Então é meu autor! Mas me disseram que eram vários...
                _ Eu sou Eugênio, não o Machado de Eugênio.
                _ ?
                Ele respira fundo  e me olha com impaciência. Então começa a dizer:
                _ Eu costumava ter um Machado, sabe? E não era um machado comum, era um machado único, singular, completamente diferente nos poderes em relação a um machado destes ordinários. E com este machado eu tinha meios para os fins, se é que você me entende. E então – ele perde a calma com que até então falava – ENTÃO VIERAM ESTES MISERÁVEIS, ESTA CORJA, ESTES MALDITOS! E furtaram meu machado, foram sorrateiros como ratos que invadem cozinhas durante a madrugada, vieram como covardes e lho pegaram pelas minhas costas! – então ele volta ao tom de antes. – Assim perdi meu machado, assim perdi meus meios. E agora fizeram você, uma experiência que deu errado, um aborto, por assim dizer. Uma pessoa presa a um livro, escrava da própria aparência, uma aberração.
                Me senti mal ouvindo estas últimas palavras, ele parecia ter percebido.
                _ Oh... então você não se lembra, não é? Você não sabe o que é nem como veio parar aqui, bem, eu te digo: Horrorizados com o equívoco criado, eles, estes que usam meu nome e meu machado como Alcunha, te jogaram fora, te deixaram para morrer abandonado na rua, vítima da deformidade que é, hoje, andar com um livro colado a si. Ou crê que as pessoas te veem bem? Andando por ai com um livro ligado a você? Não hoje, meu caro, nem antes, talvez. As pessoas em geral veem os livros como um mal necessário, se valem deles apenas quando é absolutamente impossível resolver qualquer coisa por outros meios, e ainda sim, na grande maioria dos casos,  só valem-se de livros técnicos e manuais... enfim, você é uma aberração.
                E eu estava chocado, fui posto em um mundo onde odeiam pessoas como eu, e fui posto por estes tais do Machado de Eugênio... então me lembro de algo importante:
                _ Mas e estes que agora me perseguem? O jogador de futebol com cabelo peculiar... aquele rei e aquele membro do clero?
              _ Meu caro, se tivesse lido o que tem escrito ai neste livro que é ligado ao seu umbigo, veria que a resposta é óbvia. É disto que estes pseudoescritores que te criaram vivem, de falar mal das coisas deste mundo, falam mal de um inocente padre que nada mais fez além de ensinar a palavra de Deus aos homens, fala mal deste humilde rei que rege seu povo e que o ama, e estes o amam reciprocamente, e atacam ainda um ídolo nacional como aquele jogador de futebol, alguém que nada mais faz a não ser mostrar suas habilidades para o deleite público. São uns calhordas da mais alta estirpe estes que roubaram meu machado. Só sabem maldizer os outros, só criticam e deturpam, alguns até já os têm como terroristas, são perigosos, subversivos, estúpidos também. E veja só você, são tão cruéis que te puseram a bomba nas mãos, no umbigo, mais precisamente, e te deixaram ai a ver navios.
                _ E o senhor, uma vez que não me entregou para meus caçadores, posso pressupor que me ajuda?
                _ Sim, ajudo pois acho um absurdo o que lhe fizeram, mas, também, pois tenho de reaver meu machado, tenho de trazê-lo de volta, de pegar o que me pertence e é de direito. E eles, tenha certeza de que, pelo que fizeram a mim e a ti, terão dos castigos o maior.
                ...
Pisc!k
To be continued

Saudades do controle de natalidade chinês


Houve (haverá) um garoto de quinze anos chamado Alex DeLarge cuja inclinação para o crime deixou (deixará) todos os agentes do estado e da sociedade atabalhoados. O reformatório, a prisão, a igreja e os políticos: ninguém conseguiu, por mais que tentassem (ou não), colocar o nosso amigo Alex de volta no caminho sociável. Nem as surras, as broncas, as cusparadas, a reclusão, a humilhação, a bíblia e a oração e nem a lavagem cerebral!
O problema é que os pais de Alex eram, perdoem-me P e M, estúpidos. Dois pequeno-burgueses trabalhadores alienados, ausentes e desinteressados no filho. E as pessoas se corrompem com muita facilidade, todos estamos apenas procurando motivos para desviar o olhar daquilo que não nos afeta a ponto de não poder ser ignorado. Alex voltava para casa (ah, que se danem as flexões temporais) no fim das madrugadas com os bolsos cheios de dinheiro e justificava aos pais que aquilo era fruto de ‘bicos’ que andava fazendo; dormia até tarde e faltava às aulas mentindo dores de cabeça. Os pais até desconfiavam, mas não pressionavam o filho.
O que são essas massas de criminosos no mundo contemporâneo? Há, por precária que seja, oportunidade de estudo e há vagas de trabalho, por braçal que seja. Não é a falta de opção o que leva esses jovens ao crime, pelo menos não no sentido puro da escassez de opções. Mas que opção dá para o filho o pai que o deixa na rua e bebe e não tem um grama de sensatez na cabeça?
E aqui chego ao cerne da minha intenção. Quem são esses jovens integrantes da escória da torcida organizada? Respondo: são frutos de gravidez adolescente, de pais desinteressados e despreparados (estúpidos, em suma).
Ainda dizem que a solução para o problema da criminalidade na juventude é diminuir a maioridade penal. As crianças jogadas em reformatórios (febens) não são, paradoxalmente, reformadas. Por que um adolescente inserido num meio ainda mais hostil, a cadeia, se recuperaria?
Que eles tenham mais escola e mais livros do que pedras de crack. Sei bem que essa é a mesma falácia de sempre: escolas e livros e blá blá. É o caminho e não é impossível.
Se bem que, refletindo profundamente, uma solução também viável seria realizar uma série de testes antes de autorizar um casal a ter um filho. Mas o nosso sistema precisa dos pobres e do superpopuloso mercado consumidor...

SOMA


                Se, algumas vezes, e estas não são poucas, nos perguntamos se a ficção inspira a realidade ou o contrário; talvez Aldous Huxley fosse um grande profeta ou criador de alegorias. Em Admirável Mundo Novo, obra literária de certo status, temos um mundo onde seres humanos são produzidos em laboratório com níveis intelectuais predeterminados, para atender a demanda de funções na sociedade. O sexo é uma das únicas atividades extras permitidas, e é inclusive encorajada, desde que com a maior rotatividade de parceiros quanto for possível; e há também o SOMA, uma droga produzida para entorpecer os viventes, para lhes fazer relaxados e passíveis a tudo e todos.  Não tendo vivido a época de produção do livro, nem em sua localidade espacial, não sei dizer se alegoria ou profecia, mas, em qualquer dos casos, a reflexão nos deixa boquiabertos. Vou pela segunda, profeta.
           Dir-se-ia, qualquer leitor do livro mais tocado emocional ou conscientemente, chocado; que o livro é bruto, que é perturbador, que é cruelmente genial, mas talvez poucos dissessem com real convicção, fora os sensacionalistas que pegam resenhas online para dizerem-se politizados, que a alegoria de Huxley representa o hoje. E a mim, e penso não ser da classe dos inteiramente alienados, é isso que é, um espelho fosco do contemporâneo. Um pouco jactancioso seria dizer que se compreende a fundo exatamente o que o escritor quis passar, a arte tem dessas coisas, a interpretação; principalmente quando vêm as discussões, daí parece haver permissão para uma queda livre em abstração. Mas creio que este livro, talvez pelo sucesso que fez e faz e pelos inúmeros estudos sofridos, já tem bem esclarecidos os intentos do autor. Não que isso desmereça a interpretação de alguém, tão pouco elimina a possibilidade deste papo de profecia ou alegoria ser apenas anedota e as páginas desta obra nada mais serem que um tiro no escuro que, por sorte, acertou a cabeça de alguns.
          Mas enfim, me parece cada vez mais que nos entorpecemos em SOMA e sexo descompromissado e nos esquecemos do inferno a nossa volta. Não sou dos defensores “da moral e dos bons costumes”. Mas essa moda instaurada, esse hábito da curtição, do apenas por farra e da exclusão dos relacionamentos nos leva a um caminho, cada vez menos intimidade, cada vez menos diálogos cotidiano, ou, se estes existirem, por mera fatalidade, estarão de início já buscando o fim, e terão a profundidade de pires em que se dá leite ao gato. E o soma, essa cultura do tudo muito rápido, do tudo para entreter, do tudo para passar o tempo, do tudo cada vez menos “pedante”... estes são os SOMAS, tudo feito para provocar o esvaziar da mente, tudo feito para não provocar nada no leitor, nada além do entorpecimento. É nesta reprodução de frases pífias, como: não tenho “saco” para isso, que filme chato, que música cansativa, que livro difícil... nisso caindo, abdicamos do nosso cerne, e assinamos o termo que diz, somos gado, gado e ferramenta, os que a isso não se rendem, e por alguma razão a grande maioria deve ser perversa – não que estes sejam onicientes, também são igualmente estúpidos e rendidos – nos controlarão e manusearão consoante a vontade, a vontade e o bolso. E nós, nós seguiremos, cordeiros que somos.