Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. Sol doira Sem literatura O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como o tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma, Esperar por D.Sebastião, Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca.
Mais que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca...
Um ano inteiro passou, só mais
um além dos dois mil e poucos desde que Jesus nasceu. Mas esse não foi exatamente só mais um; ele
foi o fim de muita coisa, coisas boas e ruins, coisas importantes. O fim, uma
palavra que carrega tanto ânimo, decepção, vitória, saudade, alívio, e não
importa o quanto digam que esse é na verdade o começo de algo melhor, nunca vai
deixar de ser o fim.
Nesse ano, eu e o resto dos
membros do Machado de Eugênio (em peso) terminamos o ensino médio. Foi uma
jornada gigante. Foi como carregar O anel de Bolsão até a Montanha da Perdição.
Foi difícil e, acima de tudo, acho que foi cheio de sensações conflituosas para
cada um de nós: nunca senti tanta preguiça e ao mesmo tempo ânimo de ir a algum
lugar como a escola.
Fiz bons amigos durante esse
tempo, a maioria deles está aqui mesmo no blog, e espero que esses posts
semanais que criam teias de aranha no esquecimento sirvam como conexão entre
esse passado e o que vem aí. Mas quem pode saber se o tempo, aquele vermezinho
que se arrasta incansavelmente, não vai jogar cada um para um canto, como se
fosse uma daquelas ondas bidimensionais que aparecem quando uma pedrinha
mergulha na água?
Eu não faço a mínima ideia. Mas
a única coisa que se pode fazer repetidamente é tentar não esquecer. E o
primeiro passo para isso é lembrar. E lembrar é tão mais fácil com estímulos:
imagens, cheiros, sons, algo como urina que sai das glândulas sudoríparas dos
olhos...
Vou sentir muita falta. Talvez
só até o momento em que minha cabeça se encha com coisas novas, mas isso não
quer dizer que tudo foi irrelevante. Só que o mundo seguiu adiante, e, se não
seguisse, só haveria um monte de velhinhos fumando e contando as suas memórias.
Vou sentir falta de almoçar quase todos os dias com ignóbeis e indesejáveis
sujeitos e até de ser assaltado com eles. Vou sentir falta das histórias e das
frustradas brincadeiras de falar sem parar do Kaito; dos solilóquios do André;
das conversas fiadas do Pamonhão; dos destemperos do Gnu; da companhia do
Assunção; dos beiços do Filete; das piadas do Giu; e até dos outros, em outros
níveis.
Mas, enfim, nós crescemos e
estamos cada vez mais prontos para morrer.
Eu espero que todos tenhamos
sucesso e que também encontremos razões e ocasiões para nos reunirmos de vez em
quando. Porque nós sonhamos fugir, sonhamos aterrorizar Caldas Novas na Hilux
do Assunção, sonhamos ser músicos e escritores, sonhamos morrer a obrigação e
nunca nascer a distância. Sonhamos: verbo que nunca deixa de estar no presente,
mesmo quando está no passado.
Uma coceira no pescoço deu num pouco de sangue. Cocei e cocei o pescoço, sangrou mais um bocadinho. Enquanto ria, coçava. Enquanto lia, coçava. Ia ao mercado, ia ao prédio do Estado, ao estádio, à estrada curva, mas estável, à sala de estar, de status, e continuava coçando o pescoço. Um traço de sangue por vezes escorria pelos degraus de minhas costas que era a coluna vertebral. E tinha também vestígio vermelho em minhas unhas. Perguntaram-me, certa vez:
“O que é isso?”
Disse que era machucado qualquer, coisa de pernilongo faminto, de esbarrão, torcicolo.
“O que é isso, moleque? Responde duma vez!”
“Parece cocaína, mas é só tristeza.”
“Falo do que tens no pescoço, não desta cara triste que carregas.”
“É molho de tomate. É pasta avermelhada. Estamos no dia das bruxas, sabia?”
“Tu não me enganas, isto aí é amor. Só amor é assim sangrento, moleque, e desce ao coração nesta nódoa que mancha tua camisa.”
Uma das mais belas trilhas que já ouvi na minha vida. Dê o play e comece a ler. _=--------------------------------------------=_
Nós,
seres humanos, somos dotados da mais alta arrogância, o Complexo de Deus. E, em
virtude deste restriçor visual, nos achamos acima de tudo, inclusive até da
nossa essência mais básica, a de que somos animais. Nós achamos que, com o
tempo, por termos dominado a natureza, deixamos de fazer parte dela, o que é
uma pobre ilusão para confortar os afoitos. Nós ainda estamos invariavelmente
ligados aos nossos instintos naturais. Por isso a pergunta que nosso título
propõe. Seria o amor apenas parte do plano?
Temos um conceito muito romântico das
emoções, aquele conceito abstrato que remete à alma, ao espírito, ao imaterial.
Quando na verdade (e ai os biólogos me corrijam nos comentários se eu estiver
errado) elas se restringem, fisiologicamente falando, a reações químicas que
ocorrem em nosso corpo provocando diferentes estímulos.
Existe
uma convenção mútua de não se falar muito sobre a essência das coisas, talvez
porque isso desiluda alguns e ofenda outros, mas a verdade é que “o mundo é simples”.
Não estou impossibilitando a existência de um ‘quê’ de misticismo, estou apenas
me apegando a fatores científicos, o que não quer dizer que eu não acredite na
existência dos alegóricos, estou apenas propondo a “pulga atrás da orelha”.
Seria o
amor apenas mais uma facilitação da transposição do código genético? Não seria
o amor apenas mais um artifício do nosso maquiavélico organismo tentando passar
sua configuração adiante? Não seriamos nós apenas um joguete daquilo que
dizemos ser uma das nossas grandes razões de viver? Existem aqueles que crêem
em almas gêmeas, almas destinadas ao inevitável engalfinhamento. Eu ainda não
estou certo se creio ou não nisso, mas Machado de Assis disse, em seu Livro
Memórias Póstumas de Brás Cubas, que a ocasião faz o casal, e começo a pensar
seriamente que talvez ele tenha razão. Talvez não existam almas gêmeas, talvez
seja uma questão circunstancial duas pessoas se apaixonarem. Não estou dizendo
que não temos controle sobre isso, de maneira alguma, mas deve-se lembrar que
ter controle é uma circunstância. E não o tê-lo também.
Porque
aquele homem? Porque aquela mulher? Ele talvez não seja um exemplo de beleza ou
ascendência social, ela também não é lá essas coisas. Se ela pudesse escolher,
independente da necessidade de consentimento da outra parte, ela o escolheria?
Se ela pudesse escolher um louro, esbelto, intelectual, rico; ela o escolheria?
Se ele pudesse escolher a mais cobiçada das modelos, dados os mesmo critérios,
ele a escolheria? Não diria que NÃO, mas as probabilidades provavelmente seriam
bem baixas, por isso chama-se CIRCUNSTÂNCIA. A ausência de beleza ou dote que o(a)
fizesse bom o bastante para sua cobiça não está ali, e na solidão não se
aguenta ficar, então calhou daquela(le) garota(o) sentada(o) bem ali, tomando
um Milk-shake, servir, pois dentre as
possibilidades possíveis, esta foi a que ele conseguiu. Então como aplicar toda
a poesia do Amor a este tipo de exemplo? Como se faz isso? “ó, o grande A-M-O-R”.
Bem, meu grande amigo Marco, ele me corrija se eu estiver distorcendo suas
palavras, crê que são necessários anos de convivência para se construir Amor,
para se saber de fato que aquilo é amor. Creio que ele esteja certo, talvez o
Amor, o Amor poético, não possa existir a primeira vista, porque a primeira
vista não é o amor que importa; talvez o que exista seja apenas o instinto. A
cruel libido, que lhe torce a vara e a usa como um leme, levando-lhe aonde ela
deseja. Somos todos escravos da libido. Ela nos deixa tão afoitos se não a
atendemos, nos deixa tão debilitados... e mesmo assim continuamos imunes aos
seus encantos.
Talvez
seja por isso que, com o tempo, o amor acabe, dando lugar, na velhice, ao
Respeito. Ao respeito, à menopausa, à andropausa e aos quartos separados. Ou
não.
O tempo vai passando, as pessoas vão sofrendo e as cores vão desbotando.
As
sirenes viram a esquina e chegam a nossos personagens. São veículos negros como
a noite e imponentes como uma guitarra Double-neck.
Deles não descem os habituais policiais com ar pachorrento que nossos
protagonistas estão acostumados a ver, descem homens engravatados. Para Fronrel
são todos a mesma ladainha. Direciona o revólver para um deles, mas é
surpreendido por uma abrupta coronhada no nariz. Eles eram rápidos,
profissionais e rápidos, profissionais, rápidos e impiedosos. Eram três. Usavam
gravatas, como já foi dito, partindo do pressuposto que gravatas são
acompanhadas de, no mínimo, uma camisa social, estes tinham a dita camisa, de
marca cara, e também ternos muito pomposos e alinhados. Tinham um cabelo
impecavelmente penteado e com uma quantidade absurdamente caricata de gel, o
que conferia ao cabelo um brilho quase futurista. Linda acabava de abater o
último zumbi. Aponta a Desert Eagle para
um dos agentes, mas é abruptamente surpreendida com um tiro na mão, que a
desarma. Choreilargado, percebendo a situação de desvantagem, limita-se a
erguer as mãos, mas mesmo assim é alvo de um golpe nos joelhos, que lhe faz
cair no chão.
Debaixo da luz
fraca de um pôr do sol atrasado pelo entorpecimento do horário de verão, ele
via passar o vento e ouvia o despertar das luzes artificiais e precoces que
antecipavam a chegada da noite na rua vinte e nove de fevereiro. A rua era um
daqueles lugares pacatos que a modernidade só veio descobrir – profanar,
salvar, mutilar, urbanizar no sentido orgástico – muito recentemente, tanto que
se viam coisas como sofisticadas antenas de sinal digital fixadas ao lado
daqueles caricatos galinhos que apontam o rumo das correntes de ar lá do alto
dos telhados. E ele via tudo isso acontecer à sua volta sentado num toco de
tronco de árvore, num corpo vegetal decepado como aquele dele, mas no caso do
homem que se sentava, o membro que faltava nunca esteve ali para ser visto; e a
árvore que se sentava na bunda do homem não tinha que viver com saudade daquilo
tudo que faltava.
Certa hora passava
um rapaz numa bicicleta sem pressa, um gato soturno ou um cachorro ébrio e duas
velhas murmurando historinhas ao voltar da igreja – ou quem sabe ir até ela, ou
quem sabe até montar uma na porta do inferno, na sala, na boca cheia de bile e
mentira -, passavam os minutos e o relógio corria alheio à fome de muitos e sem
medo de ser feliz. O velho – porque ele era velho, o homem sentado no toco de
tronco de árvore era velho, mesmo que eu não tenha dito antes – observava tudo
o que ali tinha a graça misteriosa de acontecer, mas nada o observava de volta,
ele que tinha a desgraça viciosa de continuar acontecendo.
Pegou um cigarro
com as mãos manchadas pelo hábito viril de fumar/cagar na própria boca, acendeu
com dificuldade, trêmulo, levou até o beiço seco e tragou desejando que aquela
fosse a última tragada, expeliu a fumaça sonhando que fosse ela o suspiro
eterno do descanso e repetiu pelo menos mais seis vezes o coito entre a glande
filtradora do cigarro e a vagina trincada que era a sua boca antes que uma
rajada violenta do poder divino arremessasse da posse dos seus dedos arqueados
e artríticos para o chão o artefato fumarento. Uma menininha rápida como um
blitzkrieg da luftwaffe em seus áureos tempos e forte como um elefante indiano
com aquelas tiarinhas na cabeça, ela era a rajada divina, ela, com um tapa,
arrancou da mão do velho o maldito cigarro, ou, em sintaxe mais apropriada,
arrancou do pescoço do cigarro a mão do maldito velho.
Ele olhava
estupefato, apalermado para a pequena pessoa vestida de rosa dos pés à cabeça e
ela olhava de volta, com aquele olhar super expressivo de revolução para sempre,
que depois, como todos nós sabemos, viria a ser para sempre jamais. Ela olhou e
disse Te vejo todos os dias aqui, sempre
sentado à toa e sempre fumando, não tem o que fazer da vida? Já usei
estupefato e apalermado, qualquer um desses ainda serve para explicar a cara do
velho, que tossiu como um doente e respondeu Tenho, capar os pais de monstrinhos, e ao ouvir uma palavra tão
adulta quanto capar, a menina girou nos calcanhares meio agitadinha.
Espera aí, por que fez isso com o meu cigarro,
só pelo malfeito de ver um velho pachorrento desconsertado?
A
menina ficou um instante ainda de costas, quando finalmente se virou com um
risinho infantil como devia ser e disse Não,
é que eu não gosto de gente que fuma, fumar estraga a vida.
Como
todo excelente velho, ele tinha uma boa resposta. Sabe, monstrinho, a vida é como uma goiaba. Dá bicho tão facinho, mas
ainda parece estar gostosa por fora. Você só percebe aquelas larvinhas depois
de uma boa mordida, e aí ânsia de vômito não vale de nada.
A menina foi
embora. Para a escola, para a faculdade, para o casamento, para a maternidade,
para o leito de morte. E o velho ficou. E sentado no toco de tronco de árvore,
resmungou para a goiabeira que é o mundo:
Eu não quero nada novo, quero morrer da boa
e velha morte dos meus pais.