Eu tinha um cachorro chamado Condor e ele morreu


O cachorro já não tinha mais por que acreditar em carpe diem, então deu mais um suspiro profundo e saiu da comodidade quentinha que era seu monte de trapos para afinal atravessar o vão da grade do portão. Seu dono pensava ser coisa de verme a razão de ele estar tão magricela, não vem comendo ultimamente, doutor, nem toucinho e nem filé, dizia. Mas aquilo era cisma de cão, que, aliás, é como cisma de gente: ele queria perder as banhas do quadril que o impediam de chegar à rua.
 Da rua, ouvia os outros cachorros profetizarem uma vagabundagem livre, enquanto o baraço de ferro apertava sua goela e deixava um rastro de rouquidão em seu uivo das noites de lua cheia; uma lua que o telhado e as barras de ferro não deixavam ver nem um quinto, mas já era um pedaço branco com tamanho suficiente para atiçar seus instintos de lobisomem. Da casa, ouvia o ir e vir de seus donos, via o lumiar da televisão que ainda não transmitia em cor, tampouco transmitiria quando chegasse a tecnologia, porque ainda assim sua visão carregava o destino monocromático de cachorro. Vivia naquele pedaço de caminho entre a casa e rua, numa transição que nunca chegava ao destino. As portas da casa se fechavam para sua sujeira canina e a porta da rua se fechava para sua inocência doméstica.
O lado de lá da grade o atraía, mas o portão não se abria sem que o dono desse um danado de um pontapé nas suas costelas quando tentava escapar pelos lados. Portanto emagreceu e num domingo qualquer, um domingo sem sorriso de amigo, cruzou as barras paralelas do portão, pisando pela primeira vez no mundo de fora que na verdade era o zoológico dos homens.
Foi andando pela calçada com o rabo apontando para o céu. Sua casa ainda podia ser vista da sombra da mangueira onde deitou-se, mas não podia andar mais. Dentro dele cresce um tumor, senhor, não é verme, não, dissera o doutor. E, no quintal, o dono vira seu bicho se debater contra a coisa abominável do outro lado do umbigo dele. O uivar que reagia à lua cheia passara a ficar mais e mais rouco. O rabo murchara; só apontou para o céu mais uma vez na vida. Perturbara-se o olhar carente e lacrimoso de quem quer um cafuné. O cachorro ia morrendo, mas não morreria na frente de sua senhoria. Pois ultrapassou o vão da grade e foi dar no pé-de-manga que vemos daqui da casa. De repente, expirou, a dor passou, mas el condor no pasa más. 

Um comentário:

  1. Triste, mas dá pra fazer uma analogia com um pouco de realidade.

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