Método Ludovico para cegos?


O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele.

            E não é que Nietzsche sempre teve razão? Com toda a sua ferocidade contra a atrofiadíssima igreja, suas loucuras, seus impulsos para expor as feiuras do mundo; ele a tinha por completo. Sempre esteve certo ao dizer – talvez não dizer, mas ao menos insinuar! – que o homem está apodrecido e sempre há de apodrecer com a mesma facilidade com que põe ar nos pulmões. Pobre do macaco, não tem tanta sujeira nas mãos para ser considerado parente do depravado Homo sap.
            Sim, todo e qualquer homem tem sujeira, tamanha imundice que nem cabe nos bolsos. Cada um tem seus vícios, seus orgulhos imbecis, suas convicções injustificadas, suas ignorâncias despropositais, suas perversões e seus egoísmos. Ou vai me dizer que não existe nada aí dentro da sua cabeça que, apesar de jamais ser capaz de admitir em voz alta, te envergonha e por vezes até assusta?
Não posso – e acho que ninguém teria os culhões para fazê-lo – afirmar que todos temos um monstro latente e à espreita dentro dos recônditos das nossas cabeças. Mas uma pergunta tem me sondado ultimamente: será que a afeição e a capacidade para a ultraviolência estão em cada ovo, cada embrião fruto do mergulho do gameta do homem no da mulher? Será mesmo que ali, no momento da concepção, já está presente a selvageria que se inflará ou não de acordo com os estímulos do mundo?
Um pouco da boa e velha ultraviolência, pura e plena, sem justificativa, motivações ou culpas, só para matar a sede lasciva por adrenalina dos nossos companheiros instintos. Eu não me atrevo a dizer que jamais seria seu cúmplice, que jamais soltaria da coleira aquele monstro que espreita e provoca; mas simplesmente não me vejo aí, o que não me isenta de culpa, de forma alguma. A culpa é uma descarga elétrica que é liberada cada vez que os pruridos do inferno te rondam a pele, mesmo que estes não sejam capazes de te vencer; a culpa vem.
Como se pode estabelecer uma relação de causa e consequência quando o assunto é “o homem é bom, mas o meio o corrompe ou o homem é ruim e sempre caga no meio e nas bordas”? Complexo, até mesmo para Rosseau e os seus contratos...
Vou transcrever um diálogo interessantíssimo de um filme que vi esses dias, Assassinos por natureza:
- Como você pode olhar para um pessoa comum, desconhecida, com esposa e filhos, inocente, e simplesmente atirar para matar?
- Inocente? Quem é inocente? É só assassinato, cara, todas as criaturas de deus o fazem, de um maneira ou de outra. Quer dizer, se você olhar na floresta, há espécies matando outras espécies. A nossa espécie está matando todas as outras espécies, inclusive a própria floresta, e nós não chamamos isso de assassínio, mas de indústria. Mas eu conheço muitas pessoas que merecem morrer.
Então é a isso que se resumem as atrocidades e as barbáries do mundo? Pura hipocrisia daqueles que julgam os crimes dos outros para depois, no calor dos seus lares, em suas confortáveis poltronas de couro, com seus uísques e belos charutos, cometerem crimes maiores ainda, genocídios, massacres, cortes e bombardeios?
É melhor parar por aqui, porque, como dizia o cara que falou dos macacos ali em cima:
 E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.

Um comentário:

  1. Oh dorgas! Será que nunca teremos respostas?

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